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Regras de Política Monetária

Regra de Taylor: a taxa de juros implícita

Como calculamos a taxa de juros que uma regra mecânica recomendaria — e como ela é comparada com a Selic praticada para classificar a postura do Banco Central.

A regra de Taylor é uma fórmula simples que tenta responder a uma pergunta difícil: dada a inflação e o estado da atividade, qual deveria ser a taxa básica de juros? Proposta por John Taylor em 1993, ela virou uma referência universal para avaliar se a política monetária está apertada ou frouxa. No Observatório calculamos a versão com meta de inflação explícita, na forma consagrada por Clarida, Galí e Gertler (1998), adaptada às metas brasileiras.

A fórmula

A taxa nominal implícita i* é a soma de quatro pedaços:

i* = r* + π* + α·(π − π*) + β·hiato

  • r* — a taxa de juros real neutra, aquela que nem estimula nem freia a economia. Usamos 5,0% ao ano, a hipótese que o Banco Central adota em seus modelos desde o Relatório de Inflação de setembro de 2024 e que coincide com a mediana do Focus para o juro neutro.
  • π* — a meta de inflação vigente, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Somados, r* e π* dão o juro nominal neutro: o que a regra recomenda quando a inflação está na meta e a economia, no potencial.
  • π — a inflação corrente, medida pelo IPCA acumulado em 12 meses.
  • hiato — o hiato do produto, quanto a atividade está acima ou abaixo do seu potencial. Aproximamos pelo desvio do IBC-Br dessazonalizado em relação à sua tendência, extraída com o filtro Hodrick-Prescott.

Os coeficientes calibrados são α = 1,5 (resposta ao desvio da inflação em relação à meta) e β = 0,5 (resposta ao hiato). O α maior que 1 é o chamado princípio de Taylor: cada ponto de inflação acima da meta pede 1,5 ponto de juro nominal, o que eleva o juro real em meio ponto e de fato freia a inflação.

A forma original de Taylor (1993), i = r* + π + 0,5·(π − π*) + 0,5·hiato, é a mesma regra escrita de outro jeito: como π = π* + (π − π*), os dois termos em inflação também somam 1,5. Somar π (em vez de π*) e ainda aplicar α = 1,5 ao desvio faria a regra responder 2,5 pontos por ponto de inflação — o dobro do que qualquer das duas convenções prescreve.

As metas de inflação ao longo do tempo

A meta π* não é fixa. O regime de metas começou em junho de 1999, e as metas anuais do CMN foram: 8,0% (1999), 6,0% (2000), 4,0% (2001), 3,5% (2002), 4,0% (2003), 5,5% (2004), 4,5% de 2005 a 2018, 4,25% (2019), 4,0% (2020), 3,75% (2021), 3,5% (2022), 3,25% (2023) e 3,0% na meta contínua a partir de 2024. Em 2003 e 2004 o Banco Central perseguiu "metas ajustadas" (8,5% e 5,5%) anunciadas em carta aberta; usamos a meta formal do CMN. Como a regra compara a inflação com a meta daquele período, ignorar essa trajetória distorceria o gap de inflação nos anos de transição — e antes de 1999 não há meta com que comparar, por isso a regra não é calculada.

Postura monetária

O valor da regra só ganha sentido quando comparado com a Selic que o Copom realmente praticou. Definimos uma banda de tolerância de ±0,5 ponto percentual:

  • Selic mais de 0,5 pp acima da taxa de Taylor → postura contracionista (juro mais alto do que a regra sugeriria).
  • Selic mais de 0,5 pp abaixo → postura expansionista.
  • Dentro da banda → postura neutra.

O que a série cobre

A regra só é calculada onde IPCA 12m, meta e hiato coexistem. Se o IBC-Br do mês ainda não saiu, a taxa daquele mês fica em branco em vez de ser calculada com hiato zero — um número incompleto apresentado como completo engana mais do que a lacuna. A Selic e a expectativa do Focus cobrem um trecho mais curto que o IPCA e o IBC-Br, por isso a comparação com a política praticada só existe nos anos mais recentes.

Limitações

A regra calibrada é uma ferramenta didática, não uma previsão da Selic. Ela usa a inflação passada em vez das expectativas, ignora a suavização de juros (o Copom move a taxa aos poucos) e depende de r* e do hiato, ambos não observáveis. Há ainda dois detalhes de calendário: o IPCA de um mês só é divulgado no mês seguinte, e a Selic usada é a vigente no fim do mês — o Copom que decidiu naquele mês olhava dados um pouco mais antigos. E a tendência do filtro HP é menos confiável nos últimos meses da série, justamente onde se lê a postura atual. Por tudo isso a regra pode divergir vários pontos percentuais da taxa efetiva. Para uma versão que adere aos dados, veja Taylor calibrada vs. estimada.

Nota de revisão (setembro de 2026)

Até setembro de 2026 esta página somava π em vez de π* na fórmula (resposta total de 2,5 à inflação), usava r* = 3,5%, calculava a regra com hiato zero quando o IBC-Br faltava e começava a série em 1996, antes do regime de metas. Tudo isso foi corrigido e a série histórica foi recalculada.